Sobre o espetáculo teatral TENTATIVAS CONTRA A VIDA DELA – (Attempts on Her Life) de Martin Crimp

Tentativas contra a vida dele

Por Aleks Sierz

No livro intitulado “The Theatre of Martin Crimp”, publicado em 2006, o crítico Alekz Sierz faz uma aproximação bem humorada com as estratégias críticas da escrita do próprio Martin Crimp para esboçar um texto sobre ele.

1. O projeto
Para o seu próximo livro, o Crítico decidiu focar num único dramaturgo, o Escritor. Mas ele está perturbado pela teoria pós-moderna que proclama A Morte do Autor. E se o Escritor não tiver escrito as suas peças? E se a linguagem tiver simplesmente falado através dele? No dia seguinte, o Crítico vê o escritor de relance na estreia de uma peça em Londres. Ufa, pelo menos ele ainda está vivo. Mas como será que ele é, como pessoa?

2. A escola
A primeira coisa que o Crítico estabelece sobre o Escritor é que ele frequentou a mesma escola que um outro escritor famoso. Então ele pesquisa a obra do Escritor, procurando pistas da sua criação, sua família, sua escola. Obviamente com pouco sucesso.

3. Antecedentes
Procurando antecedentes, o Crítico vai atrás da Agente do Escritor. Ela tem informações sobre os antecedentes dele? Como o quê? Ah, você sabe, artigos, ou perfis, ou até mesmo entrevistas reveladoras. Depois de alguns dias, a Agente retorna para o Crítico. Não, não há nenhum material sobre os seus antecedentes em arquivo. Antigamente, reflete o Crítico, os escritores podiam aparecer como O Homem Underground, O Homem Supérfluo ou O Homem sem Qualidades. Hoje, o Escritor aparece como O Homem sem Antecedentes.

4. O Acadêmico
O Crítico entra em contato com o Acadêmico. Ele ouviu dizer que o Escritor, que está rapidamente se tornando o seu dramaturgo, visitou a universidade do Acadêmico e deu uma palestra para os seus alunos. Com certeza, ele deve ter falado francamente sobre a vida dele. Então o Crítico pergunta se o Acadêmico tem uma gravação dessa palestra. O Acadêmico responde que o Escritor se recusou a se deixar gravar, e tudo o que ele se lembra é que ele insistia repetidamente que ele era um “satirista”.

5. A tradução
O Crítico descobre que o Escritor concedeu a sua mais sincera entrevista a um Crítico Estrangeiro. Ao saber que o Crítico Estrangeiro publicou a entrevista em uma língua que o Crítico não fala, ele entra em contato e pede a transcrição original. Mas o Crítico Estrangeiro conta que a transcrição original desapareceu quando o seu computador foi roubado. Mas ele se oferece para enviar ao Crítico a versão traduzida. Agora o Crítico tem que achar um tradutor para traduzir novamente para o inglês a  entrevista traduzida. No processo de retradução, muito se perde. O Escritor permanece inapreensível.

6. O texto do programa
O Crítico é convidado a escrever um texto para o programa de uma nova montagem de uma peça do Escritor. Isso o força a olhar detalhadamente para a obra. Ele se surpreende mais uma vez com sua paixão, seu ímpeto e sua crueldade. Ele tem dificuldades para conciliar isso com o que ele conhece da pessoa do Escritor, que sempre parece distanciado, gentil e amável. É hora de passar a noite acordado pelejando com ideias sobre os trabalhos da imaginação humana.

7. O artigo de jornal
Agora que a nova peça do Escritor está prestes a estrear, o Crítico tenta publicar um artigo sobre ele no jornal de domingo. Mas, em vez disso, ele é convocado para entrevistar o Diretor. Ele faz a entrevista e escreve um artigo elogioso sobre as habilidades do Diretor. Neste artigo, ele insere algumas citações do Escritor. Os editores mandam o artigo de volta. O que é essa coisa toda sobre teatro? O que nós queremos saber é sobre a vida pessoal do Diretor. O que ele bebe? Ele se veste mal? Com quem ele está dormindo? Para inserir essa outras informações, o Crítico tem que cortar as citações do Escritor.

8. O festival
Numa viagem para fora do país, o Crítico e o Escritor são convidados para o mesmo festival de teatro. Eles aparecem nos mesmos cartazes, são entrevistados pelos mesmos jornalistas e bebem o mesmo tipo de vinho. Por um certo tempo, eles são tratados como herois – e então está na hora de voltar para casa. Na volta, o Crítico tenta criar uma imagem da personalidade do Escritor. Ele desiste quando se dá conta de que, naquela atmosfera tão artificial de um festival internacional de teatro, ambos estavam interpretando um papel.

9. A pesquisa
Numa pesquisa no Museu do Teatro, o Crítico descobre um raro artigo de jornal escrito pelo Escritor. Trata-se de um relato irônico de um encontro imaginário entre ele e um Dramaturgo Estrangeiro, morto há muito tempo, agora clássico, cuja obra ele traduziu. No artigo, o Dramaturgo Estrangeiro é forçado a dizer: “Nada de perguntas sobre a minha vida pessoal! Esse gosto pelos deslizes é realmente essencial para o jornalismo britânico? Esse país deve ter a cabeça muito fudida pra ficar babando na vida sexual das pessoas .” O Crítico desiste da ideia de perguntar ao Escritor se a sua vida pessoal influenciou a sua obra.

10. A música
Sabendo que o Escritor é um músico talentoso, o Crítico pesquisa a sua obra procurando traços de um ouvido musical. Por toda a parte, referências à música clássica saltam ao seu olhar. De repente, a sua obra parece ser somente sobre música e nada mais. Até os diálogos parecem canções; enquanto lê, o Crítico se vê cantarolando os diálogos como uma melodia.

11. A estreia
O Crítico vai à estreia de uma peça de um jovem Dramaturgo Alemão. Ele se vê sentado exatamente atrás do Escritor, do Escritor Inglês – do seu Escritor. Ao longo da peça alemã, o Crítico não apenas assiste à nova peça por cima da cabeça do Escritor, mas também assiste a ela exclusivamente através do prisma da obra do Escritor. Ele sai do teatro com a rara impressão de não ter realmente apreciado a peça do Dramaturgo Alemão por si só.

12. O supermercado
A notícia do livro do Crítico se espalha, ele ouve falar de muitas aparições públicas do Escritor. Estranhamente, todas parecem acontecer em um supermercado. Será que este Escritor é fanático por fazer compras? Ou será que ele sente mais fome que o normal? Ou será que o supermercado é simplesmente um dos poucos lugares públicos onde os encontros casuais ainda podem acontecer?

13. A família
O Escritor é um homem de família. O Crítico encontra a Família do Escritor mais de uma vez. E nada do que ele vê ou escuta quando encontra a Família do Escritor tem a menor relação com a obra do Escritor. Será possível – que o Escritor tenha realmente se expurgado da falácia autobiográfica?

14. O cartão postal
O Escritor envia um cartão postal para o Crítico. O Crítico examina o cartão postal, procurando pistas. Existe um subtexto por trás dessa alegre saudação? O que significa a imagem no cartão postal? Que pistas a letra do Escritor pode fornecer a respeito da sua personalidade? A ideia de analisar a letra do Escritor apenas revela ao Crítico o absurdo da sua obsessão pela vida ele. É melhor se concentrar na obra.

15. O obituário
O Crítico fica sabendo que dois Acadêmicos Espanhois entrevistaram o Escritor. Então, como foi? “Ah, ele foi muito prestativo e generoso com o seu tempo, especialmente se levarmos em consideração que ele tinha chegado só um dia antes e os jornalistas estavam esperando por ele” – eles respondem. Quando o Crítico conta isso para o Escritor, ele resume a resposta deles: “Cansado, mas prestativo.” O Escritor ri. “Ele estava cansado, mas era prestativo – parece um bom obituário.”

16. A entrevista
O Crítico entrevista o Escritor para um artigo em uma revista. Ao longo da entrevista, ele tenta encontrar um jeito de descrever os gestos do Escritor, a forma como ele bebe água e a maneira de se vestir. Num certo ponto, no que parece um gesto impensado de revelação generosa, o Escritor diz: “É uma questão do meu temperamento – eu sempre quero pegar a via do desvio.” Como chave psicológica, não é grande coisa, mas é o máximo que o Crítico consegue.

17. Fim
O Crítico não consegue pensar numa boa forma de terminar o livro. Então ele decide escrever algo divertido com base na própria obra do Escritor. Mas por mais que ele se lisonjeie com as suas próprias habilidades satíricas, aos poucos ele se dá conta de que a sua tentativa de se colocar na pele do Escritor é, na verdade, apenas parcialmente bem-sucedida. No final, qualquer semelhança entre esses personagens e qualquer pessoa viva ou morta é meramente…

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