Sobre o espetáculo teatral TENTATIVAS CONTRA A VIDA DELA – (Attempts on Her Life) de Martin Crimp

Uma peça com travessões

Por Felipe Vidal

Em julho de 2008 estive com Tom Stoppard para conversarmos sobre o Rock’n'Roll que eu estava traduzindo e às vésperas de dirigir. Foi um chá e uma breve conversa numa tarde. Lá, ele me perguntou sobre as peças que eu já tinha dirigido e eu comentei que dentre outras tinha dirigido duas pecas da Sarah Kane, inglesa como ele, que eu previa que ele pudesse conhecer. Ele de pronto, espirituosamente, disse que a Sarah Kane era a “alegria dos diretores” pois ele tinha notícia de uma montagem de um dos textos dela com uma atriz, outra com três atores e outra, desse mesmo texto, com vários no elenco.  Eu ri da piada dele, entendi o hiato de gerações que há entre ele e a Sarah e a radical divergência estética da dramaturgia dos dois. Não aprofundei mais o assunto pois estava ali pra falar do Rock’n'Roll – e as peças da Sarah que eu dirigi tinham personagens com nome e tudo! 

Falo aqui desse encontro pois dias antes dele, tinha lido uma peça bastante instigante, que eu tinha ficado com muita vontade de dirigir, de um outro autor britânico, que não tinha nenhum personagem nomeado, apenas travessões com falas nas dezessete cenas / situações que se apresentavam e que faziam referência a uma personagem ausente. No início do texto tem uma indicação do autor que diz apenas:

Um travessão no início de uma fala indica uma mudança de ator. Se não houver travessão depois de uma pausa, isso significa que o mesmo ator continua falando.”

Esta peça era Tentativas contra vida dela – (Attempts on Her Life) de Martin Crimp. Texto escrito em 1997, do qual Sarah Kane era fã e talvez a tenha de alguma maneira influenciado a escrever seu texto “sem personagens” ao qual o Tom Stoppard se referia.

Tempos depois eu e Daniele Avila começamos a nos articular para viabilizar a montagem de “Tentativas…”. Quando finalmente fizemos as primeiras leituras com os atores eu me lembrava sempre da piadinha do Stoppard e cada vez mais percebia que esta aparente liberdade que um texto com “travessões e falas” poderia dar era bastante ilusória.

O fato de poder arbitrar o número de atores e atrizes do elenco, quantos e quais atores seriam em cada situação me pareceu, num primeiro momento, um jogo bastante livre, quase anárquico. Mas depois de definidos os atores e o microcosmo que se estabeleceu, a cada leitura, quanto mais nos aprofundávamos na escrita do Crimp, maior era a sensação de que portas iam se fechando e de que uma narrativa ia se impondo com muito vigor para aquele grupo de pessoas.

Então, junto com a equipe e os atores, parceiros fundamentais de criação, fomos desbastando a peça e mergulhando no mosaico proposto pelo autor. E percebi que mesmo sem nunca ter tomado um chá com o Martin Crimp, consegui estar durante o processo muito mais perto dele do que do bom e velho Stoppard.

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